terça-feira, 19 de julho de 2011

Consciência, atenção, memória, orientação, inteligência e suas alterações

O termo consciência origina-se da junção de dois termos latinos: cum (com) e scio (conhecer), indicando o conhecimento compartilhado com outro e, por extensão, o “conhecimento compartilhado consigo mesmo”.
A definição neuro psicológica para consciência é o estado vigil, mais relacionada ao nível de consciência. Já a definição psicológica a define como a dimensão subjetiva da atitude psíquica do sujeito que se volta para a realidade.


Neuropsicologia da consciência

O SRAA (sistema reticular ativador ascendente) origina-se no tronco cerebral e sua ação estende-se até o córtex, por meio de projeções talâmicas.
Considera-se particularmente importante para a atividade mental consciente a atividade do lobo parietal direito, intimamente relacionado ao reconhecimento do próprio corpo, dos objetos e do mundo, assim como da apreensão daquilo que convencionalmente denomina-se realidade.

Campo da consciência

Ao voltar-se para a realidade, a consciência demarca um campo onde se separam a zona focal da marginal. É na margem da consciência que surgem os chamados automatismos mentais e estados subliminares.

O inconsciente

É como se fosse uma segunda consciência, dividindo-se em inconsciente verdadeiro (incapaz de consciência) e pré-consciência, composto por representações, ideias e sentimentos suscetíveis de serem evocados pelo esforço voluntário.

Características funcionais do inconsciente

Atemporalidade, isenção de contradição, principio do prazer e processo primário.

Alterações normais da consciência

O sono normal: divide-se em duas partes principais: sono REM e sono não REM. O sono sincronizado não REM apresenta 4 fases (estágios). Cada vez que avança o estágio, mais profundo fica o sono e mais difícil fica de acordar o paciente.
Já o sono REM não está inserido em nenhum desses estágios e perfaz cerca de 20 a 25% do tempo do sono. Caracteriza-se por uma instabilidade no SNA simpático, com variações das frequências cardíacas e respiratória, pressão arterial, débito cardíaco e fluxo sanguíneo cerebral.
Em uma noite normal de sono, as fases não-REM e REM repetem-se de forma cíclica a cada 70 a 110 minutos, com 4 a 6 ciclos completos por noite. Ao longo da noite os períodos REM vão se tornando mais frequentes e prolongados, desaparecendo os estágios III e IV.
O sonho pode ser considerado uma “alteração normal” da consciência. A maioria das pessoas sonha várias vezes durante uma noite, apenas não lembra. O sonho é um fenômeno psicológico extremamente rico e revelador de desejos e temores, ainda que de forma indireta e disfarçada.

Alterações quantitativas da consciência

  1. Obnubilação: é o rebaixamento da consciência em grau leve a moderado. Sempre há diminuição do grau de clareza do sensório, com lentidão da compreensão e dificuldade de concentração.
  2. Sopor: é um estado marcante de turvação da consciência no qual o paciente pode ser apenas despertado por estímulo enérgico, sobretudo de natureza dolorosa. Aqui o paciente apresenta-se sempre evidentemente sonolento.
  3. Coma: nesse estado não é possível qualquer atividade voluntária consciente. Além da ausência de qualquer indício de consciência, pode-se ver movimentos oculares errantes com desvios lentos e aleatórios, nistagmo, transtornos do olhar conjugado, anormalidades dos reflexos oculocefálicos e oculovestibular, ausência do reflexo de acomodação.

Síndromes psicopatológicas associadas ao rebaixamento do nível de consciência

-Síndromes confusionais agudas (delirium): trata-se de quadros com rebaixamento leve a moderado do nível de consciência, acompanhados de desorientação temporo-espacial, dificuldades de concentrar-se, perplexidade, ansiedade em graus variáveis, agitação ou lentificação psicomotora, ilusões e/ou alucinações, quase sempre visuais.
-Estado onírico: é uma alteração da consciência na qual, paralelamente à turvação da consciência e a confusão mental, o indivíduo entra em um estado semelhante a um sonho muito vívido. O estado onírico ocorre devido a psicoses tóxicas, as síndromes de abstinência a drogas e a quadros febris tóxico-infecciosos.

Alterações qualitativas da consciência

Certa parte da consciência está normal, enquanto outra encontra-se alterada.
  1. Estados crepusculares: Ocorre afunilamento da consciência, com a conservação de uma atividade psicomotora global mais ou menos coordenada, permitindo a ocorrência dos atos automáticos. Esse estado caracteriza-se por surgir e desaparecer de forma abrupta e ter uma duração variável de poucas horas a algumas semanas.
  2. Dissociação da consciência: Tal expressão designa a fragmentação ou divisão do campo da consciência, ocorrendo perda da unidade psíquica comum do ser humana. Comum nos estados de ansiedade intensa, onde o indivíduo “desliga” da realidade para parar de sofrer.
  3. Transe: Estado de dissociação da consciência que se assemelha a um sonho acordado, mas dele se difere pela presença de atividade motora automática e estereotipada acompanhada de suspensão parcial dos movimentos voluntários.
  4. Estado hipnótico: estado de consciência reduzida e estreitada e de atenção concentrada que pode ser induzido por outras pessoas (hipnotizador).

A atenção e suas alterações

A atenção pode ser definida como a direção da consciência, o estado de concentração da atividade mental sobre determinado objeto.

Neuropsicologia da atenção

A atenção resulta da interação de diversas áreas do sistema nervoso, sendo a principal o sistema reticular ativador ascendente. Já a porção anterior do giro do cíngulo é particularmente importante para o processo de controle da atenção realizados pelas estruturas frontais.

Psicologia da atenção

Podemos discenir dois tipos básicos de atenção: a voluntária e espontânea.
Em relação a direção da atenção descreve-se a atenção interna (voltada para própria psique) e externa (objetos externos ou próprio corpo).
Em relação à amplitude da atenção temos a focal (centrada sobre um campo determinado e restrito da consciência) e a atenção dispersa (não se concentra em uma área delimitada).
Atenção seletiva é a capacidade de seleção de estímulos e objetos específicos. Já a atenção sustentada é a capacidade de manutenção da seletiva sobre determinado estímulo ou objeto.
Tenacidade é a capacidade do indivíduo de fixar sua atenção sobre determinada área ou objeto. A vigilância é a qualidade da atenção que permite o indivíduo mudar seu foco de um objeto para outro.

Anormalidades da atenção

-Hipoprorexia: diminuição global da atenção
-Aprorexia: abolição total da atenção.
-Hiperprorexia: estado de atenção exacerbada.
-Distração: superconcentração ativa da atenção sobre determinados conteúdos ou objetos, com inibição de tudo mais.


A orientação e suas alterações

É a capacidade de situar-se quanto a si mesmo e ao ambiente. A avaliação da orientação é um instrumento valioso para a verificação das pertubações do nível de consciência.
Orientação autopsíquica: orientação do indivíduo em relação a si mesmo.
Orientação alopsíquica: capacidade de orientar-se em relação ao mundo. Divide-se em orientação temporal e espacial. Sendo que a orientação temporal é mais complexa e elaborada mais tardiamente, além de ser particularmente prejudicada pelos transtornos mentais.

Alterações da orientação

Geralmente o paciente apresenta uma desorientação temporal e, só após o agravamento do quadro, desorienta-se quanto ao espaço e quanto a si mesmo.
-Desorientação por redução do nível de consciência (desorientação) é aquela na qual o indivíduo está desorientado por turvação da consciência.
-Desorientação por déficit de memória de fixação, também denominada desorientação amnéstica. Ocorre por deficiência na capacidade de fixar na memória as informações ambientais básicas.
-Desorientação por apatia e/ou desinteresse profundos: por falta de motivação e interrese, o indivíduo não investe sua energia no meio externo, tornando-se, portanto, desorientado.
-Desorientação delirante: ocorre em indivíduos que estão em profundo estado delirante, que vivencia seus estados delirantes e se torna desorientado.
-Desorientação oligofrênica: indivíduos com graves deficits intelectuais, que acabam não interpretando dados para poder se localizar no tempo e no espaço.
-Desorientação histérica: ocorre em quadros histéricos graves, geralmente acompanhada de alterações da identidade pessoal.
-Desorientação por desagregação: ocorre quando o paciente apresenta sua atividade mental gravemente desorganizada, o que impede de se orientar adequadamente no ambiente e quanto a si mesmo.

A memória e suas alterações

A memória é a capacidade de registrar, manter e evocar os fatos já ocorridos. A memorização relaciona-se com o nível de consciência, com a atenção e com o interesse afetivo.
A memória cognitiva é composta por três fases ou elementos básicos: fase de percepção, registro e fixação; fase de retenção e conservação; fase de reprodução e evocação.

Fatores psicológicos do processo de memorização

Do ponto de vista psicológico, o processo de fixação depende: do nível de consciência, da atenção global, da sensopercepção preservada, do interesse, de conhecimento anterior, da capacidade de compreensão, da organização temporal das repetições e dos canais sensoperceptivos envolvidos na fixação.
Já a conservação depende da repetição e associação com outros elementos.
A evocação seria a capacidade de recuperar e atualizar os dados fixados. Já o esquecimento é a denominação que se dá a impossibilidade de evocar e recordar.
Em relação ao processo temporal de aquisição e evocação de elementos mnêmicos, a memória é dividade em três fases:
  • Memória imediata
  • Memória recente
  • Memória remota
Já o esquecimento se dá por três vias:
  • Fisiológica
  • Repressão
  • Esquecimento por recalque
Segundo a lei de Ribot, o indivíduo que sofre uma lesão cerebral tende a esquecer na ordem e no sentido inverso em que adquiria a memória.

Alterações patológicas da memória

Quantitativas
-Hipermnésias: as representações afluem rapidamente, ganhando em número, entretanto, perdendo em clareza e precisão. É mais uma aceleração do ritmo psíquico.
-Amnésias (ou hipomnésias): é a perda da memória, seja por perda da capacidade de fixar ou manter e evocar antigos conteúdos mnêmicos. Podem ser tanto psicogênicas como orgânicas, assim como anterógradas e retrógradas.

Qualitativas (paramnésias)

Os principais tipos são:
  • Ilusões mnêmicas: há o acréscimo de elementos falsos a um núcleo verdadeiro da memória.
  • Alucinações mnêmicas: são verdadeiras criações imaginativas com a aparência de lembranças ou reminiscências, e não corresponde a nenhum elemento mnêmico, a nenhuma lembrança verdadeira.
  • Criptomnésias: as lembranças aparecem como fatos novos ao paciente, que não reconhece como lembranças, vivendo-as como uma descoberta nova.
  • Ecmnésia: o indivíduo tem a vivência de uma alucinação, a visão de cenas passadas.
  • Lembrança obsessiva: também denominada “ideia fixa” manifesta-se como o surgimento espontâneo de imagens mnêmicas ou conteúdos ideativo do passado, que, uma vez instalados na consciência, não podem ser repelidos voluntariamente pelo indivíduo.

Transtornos do reconhecimento

Dividem-se em dois grandes grupos: as agnosias (origem cerebral) e transtornos do reconhecimento (sem base orgânica definida).
-Agnosias: são definidas como déficits do reconhecimento de estímulos sensoriais, objetos e fenômenos que não podem ser explicados por um déficit sensorial. Podem ser agnosias visuais, táteis, auditivas e as agnosias para percepções complexas.

A inteligência e suas alterações

A inteligência pode ser definida como a totalidade das habilidades cognitivas do indivíduo. Dessa forma, será tanto mais inteligente o indivíduo quanto melhor e mais rapidamente possa compreender o que sucede.

Ontogênese da inteligência

Segundo Jean Piaget, a inteligência na criança não é somente herdada, nem apenas aprendida. Além disso, descreveu quatro estágios de desenvolvimento da inteligência.

  • Período sensório-motor: ocorre nos dois primeiros anos de vida. Nesse período, as estruturas mentais restringem-se ao domínio dos objetos concretos.
  • Período pré-operatório: Ocorre entre os 2 e os 7 anos de vida. Processa-se nesse período o domínio dos símbolos e o desenvolvimento da linguagem, dos sentimentos interpessoais e das relações sociais.
  • Período operatório-concreto: Entre os 7 anos e 12 anos de idade. Nesse período a criança aprende a dominar cabalmente as classes, relações e números, assim como raciocinar sobre eles.
  • Período operatório-formal: dos 12 aos 16 anos. Nesse período o adolescente envolve-se com o domínio do pensamento abstrato, com o sistemas simbólicos e categorias abstratas mais gerais, como o funcionamento mental e cognitivo do “mundo adulto”.
Aspectos gerais do retardo mental

Grau de retardo mental
Quociente intelectual (QI)
Idade mental
Melhor nível escolar alcançável
% do total de indivíduos com RM
Transtornos associados
Limítrofe (não é RM)
70-84
-
Dificuldades apenas no 2º grau
Não é considerado RM
Dificuldades de comportamento no ambiente escolar
RM leve
50-69
9-12 anos
6ºa 7º séries
85,00%
Transtornos de conduta, autismo, epilepsia
RM moderada
35-49
6 a 9 anos
2º série do primeiro grau
10,00%
Transtornos de conduta, autismo, epilepsia
RM grave
20-34
3 a 6 anos
Não consegue frequentar a escola
3-4%
Déficits motores e sensoriais, epilepsia
RM profundo
Abaixo de 20
Menos 3 anos
Não consegue frequentar a escola
1-2%
Déficits motores e sensoriais, epilepsia

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